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ERGONOMIA - NIOSH

4. CARGA LIMITE RECOMENDADA
4.1 Critérios para determinar os limites de levantamento de peso:
Segundo os fundamentos da Biomecânica, praticamente não existem limites para o ser humano, quando são utilizados ferramentas e equipamentos adequados ao peso e ação a ser executada, adotando uma postura adequada no momento de realizar os esforços (Couto, 1995).
Nos dias de hoje, ainda é freqüente encontrar atividades onde predominam o manuseio e a movimentação manual de cargas. E a dúvida é se esta atividade está sendo realizada dentro dos limites normais de tolerância, ou se está sobrecarregando alguma parte do corpo, havendo possibilidades de vir a provocar uma lesão músculo-ligamentar ou mesmo uma hérnia de disco.
No Brasil, a legislação não é muito específica, neste ponto. Estipula em 60 (kg) o peso máximo que um trabalhador deve manusear, numa atividade laboral (Brasil, 1994). Apesar disto, este valor não pode ser referenciado para uma atividade que seja realizada durante toda uma jornada de trabalho. Desta forma, alguns trabalhadores, acostumados a levantar cargas que variam de 10 a 15 kg, apresentaram hérnia de disco, ou outras lesões na coluna ou membros, o que nos leva a questionar não só a legislação, como os métodos utilizados para obter estas referências limites (Couto, 1995).
A seguir será apresentado o método NIOSH, escolhido por ser prático e fácil de utilizar, apresentando uma metodologia de avaliação simples e eficaz, na determinação da carga limite a ser manuseado e movimentado por um trabalhador.
4.2 O método NIOSH:
Em 1980, nos Estados Unidos, sob iniciativa do National Institute for Ocupational Safety and Health - NIOSH, patrocinou-se o desenvolvimento de um método para determinar a carga máxima a ser manuseada e movimentada manualmente numa atividade de trabalho - NIOSH Tecnical Report - Work Practices Guide for Manual Lifting (1981).
Para isto, um grupo de pesquisadores reuniu-se para a formulação de um método consistente sobre o assunto, levantando referências bibliográficas de todo o mundo e concluíram que este método deveria levar em conta quatro aspectos básicos.
a) O epidemiológico, que é o estudo das doenças, sua incidência, prevalência, efeitos e os meios para sua prevenção ou tratamento (Barbanti, 1994). Segundo dados apresentados no capitulo 3, verificamos que as atividades de manuseio e movimentação de cargas manualmente, se relacionam com problemas na região lombar. No Estado de Santa Catarina, verificou-se através de consultas nos registros do INSS (1995), uma grande incidência de problemas lombares em indivíduos que realizam este tipo de trabalho. Assim também, outros problemas poderão vir a aparecer, como é o caso de lesões por esforço repetitivo, fraturas, distensões, etc.
b) O psicológico, que considera o comportamento humano numa determinada situação. No caso do trabalho, observamos que a imposição de certas tarefas depende da aceitação do próprio trabalhador. Um exemplo claro nos mostra que como forma de prevenir as lombalgias, estipula-se que um trabalhador remova um conjunto de 1000 peças de 1 kg, uma de cada vez. Esta proposta é inviável economicamente, e psicologicamente será muito mal aceita pelo trabalhador (Couto, 1995). Mas, em contrapartida, um treinamento bem planejado somado com uma organização adequada do trabalho, podem chegar a consensos mais razoáveis, estipulando pesos mais adequados, ritmos e posturas que evitem o comprometimento da saúde, tanto física quanto mental do trabalhador.
c) O biomecânico, estuda as estruturas e funções dos sistemas biológicos, usando conceitos, métodos e leis da mecânica. A biomecânica do movimento humano trata do estudo do movimento durante o trabalho, na vida diária e nos esportes (Barbanti, 1994).
d) O fisiológico, estuda as funções do organismo vivo. O fenômeno do crescimento, digestão, respiração, reprodução, excreção, são primordialmente fisiológicos. A fisiologia do exercício estuda as funções do organismo em relação ao trabalho físico.
O método NIOSH foi revisto em 1992, sendo proposto o Limite de Peso Recomendado (L.P.R) e o Índice de Levantamento (I.L) (Watters, 1993).
O grupo de pesquisadores que fez esta revisão, decidiu estabelecer um critério não baseado em determinada carga, acima da qual seria problemático e abaixo da qual haveria segurança, nem se basearam em estabelecer uma freqüência máxima, nem uma técnica especifica para se fazer um esforço (Waters, 1993). O método utilizado estabeleceu que, para uma situação qualquer de trabalho, no levantamento manual de cargas, existe um Limite de Peso Recomendado (L.P.R). O L.P.R, uma vez calculado, compara-se com a carga real levantada, obtendo-se então o Índice de Levantamento (I.L).
Assim, estipula-se que se o valor do I.L, for menor que 1.0, a chance de lesão será mínima e o trabalhador estará em situação segura; se o valor for de 1.0 a 2.0, aumenta-se o risco; e se a situação de trabalho for maior que 2.0, aumentará o risco de lesões na coluna e no sistema músculo-ligamentar (Waters, 1993; Couto, 1995).
4.3 O Limite de Peso Recomendado (L.P.R):
As principais considerações do L.P.R são:
a) Deve respeitar o peso que uma pessoa possa levantar em situação de trabalho, no qual 90% dos homens e no mínimo 75% das mulheres o façam sem lesão (Waters, 1993);
b) No nível apresentado anteriormente, a taxa metabólica é da ordem de 3,5 kcal/min, o que é compatível com uma jornada continua (Astrand e Rodahl, 1986);
c) Níveis abaixo do apresentado nos itens anteriores, não apresentam um significativo comprometimento do sistema osteomuscular;
d) A compressão no disco L5-S1 da coluna vertebral, visualizada na figura 11, que pode ser suportada normalmente, é da ordem de 3400 Newtons. Uma situação de trabalho onde exista uma força de compressão maior que 6600 Newtons, são capazes de provocar microtraumas ou mesmo a ruptura no disco na maioria das vezes, dentre outras lesões (Chaffin e Andersson, 1984; Jagüer e Luttmann, 1989; Jagüer e Luttmann, 1992; Genaidy et al, 1993).
Figura11: Força sobre L5 S1,esquema de forças atuando sobre o disco intervertebral situado entre a quinta vértebra (L5) lombar e a primeira vértebra do sacro (S1), quando de um levantamento manual de carga (Amaral,1993).
4.4 Fórmula para cálculo do Limite de Peso Recomendado - L.P.R:
A equação de cálculo utilizada para determinar o Limite de Peso Recomandada é a seguinte:

LPR = 23 x FDH x FAV x FDVP x FFL x FRLT x FQPC
Onde o valor 23, corresponde ao peso limite ideal, quer dizer, aquele que pode ser manuseado sem risco particular, quando a carga está idealmente colocada (FDH=25 cm; FAV=75 cm; FRLT=0o; freqüência de levantamento menor que uma vez a cada cinco minutos - F<0,2/min;>= 11 cm, e no mínimo 5 cm de espaço para as mãos; b) No caso de uma pega numa caixa, esta deve ter uma altura de no mínimo 7,5 cm, comprimento >=11 cm, forma semi-oval, no mínimo 3,2 cm de espaço para os dedos, a sua superfície deve ser não derrapante e com algum grau de compressibilidade;
c) No caso de caixas ou similar, deve-se permitir a possibilidade de dobrar os dedos próximo de 90º debaixo desta.
Figura 13: Fluxograma para definição da qualidade da pega (Herrin, 1986; Couto, 1995)
4.5 Estabelecimento do Peso Máximo Recomendado de 23 kg, segundo o método NIOSH:
Ao estabelecer o limite de peso em 23 kg, os especialistas destacam que este é o Limite de Peso Recomendado, que é um peso que mais de 90% dos homens e mais de 75% das mulheres podem levantar sem problemas (Waters, 1993).
A título de exemplo, pode-se mencionar que na Itália, trabalha-se com o valor de 30 kg para os homens e 20 kg para as mulheres. E na comunidade Européia, trabalha-se num consenso que estipula em 25 kg, o peso limite, salvo os países indicados no capitulo 4, que trata das legislações, em alguns países do mundo.
Assim, é recomendado que para que uma pessoa possa levantar uma carga de 23 kg, esta deve estar próxima do corpo, sendo pega a uma altura de 75 cm, elevada 30 cm entre sua origem e seu destino, qualidade de pega boa e freqüência de levantamento menor que uma vez a cada cinco minutos. Se a situação apresentar características similares ou melhores, então o L.P.R, será bem inferior que 23 kg.
O método apresentado não considera o fator elevação com apenas uma das mãos, fato que acontece com freqüência em atividades de movimentação de cargas. Nestes casos, a equipe técnica da Clínica del Lavoro, em Milão, faz a seguinte recomendação, aplicar ao valor encontrado pela formula NIOSH o multiplicador 0,6, obtendo-se assim uma aproximação mais real, ao se realizar uma destas atividades com uma das mãos.
Segundo Couto (1995), uma das maiores vantagens do método Niosh, é a visualização de cada item integrante do cálculo, permitindo assim a atuação da ergonomia de forma efetiva sobre aqueles itens. Menciona-se o seguinte exemplo: se a queda no valor recomendado estiver sendo devida ao fator horizontal, a aproximação da carga ao trabalhador irá possibilitar um aumento deste multiplicador, e conseqüentemente a melhoria das condições de trabalho, como mostra a figura 14.
Figura 14: Fator distância horizontal do indivíduo à carga (Couto, 1995).
4.6 Modelo para cálculo do Limite de Peso Recomendado (L.P.R):
Utilizando como base o método NIOSH, as mudanças feitas na Clinica del Lavoro de Milão, tudo isto adaptado por Couto (1995), foi elaborada uma tabela que permite de forma rápida e prática a obtenção do L.P.R.
Utilizando um exemplo real, extraído do levantamento realizado no estudo de caso, aplicaremos a tabela numa situação normal de trabalho, que se repetia com freqüência.
A situação consiste no transporte de painéis de madeira, a serem colocados manualmente nas estruturas para posterior colocação das ferragens e concretagem. Para realizar esta atividade, são utilizados painéis de madeira de 2,00 x 1,5 metros, pesando em média 45 kg. Estes painéis são transportados habitualmente pelos serventes e algumas vezes pelos carpinteiros. A atividade consiste basicamente no transporte destes painéis localizados no chão, até uma altura de aproximadamente 1,5 metros. No caso do exemplo referenciado, o trabalhador executava uma rotação de aproximadamente 90º , para poder realizar esta atividade. A figura 15, ilustra a situação referenciada.
Figura 15: Atividade de carregamento de painéis
Os fatores utilizados no modelo de cálculo do L.P.R, são os seguintes:
a) FAV = 25, correspondendo ao fator distância das mãos ao chão na origem do levantamento, que neste caso equivale ao fator 0,85;
b) FDUP = 150, correspondendo ao fator distância vertical do peso entre a origem e o destino, que neste caso equivale a 0,86;
c) FDH = 55, correspondendo ao fator distância máxima do peso ao corpo durante o levantamento, que neste caso equivale a 0,45;
d) FRLT = 90, correspondendo ao fator ângulo de rotação do tronco no plano sagital, que neste caso equivale a 0,71;
e) FQPC = Pega pobre, correspondendo ao fator qualidade da pega da carga, que neste caso equivale a 0,9;
f) FFL = 1, correspondendo ao fator freqüência do levantamento medida em levantamento por minutos, que neste caso equivale a 0,88.
Figura 16: Situação real na atividade de carregamento de painéis.
A figura 17, mostra a tabela adaptada da Clinica del Lavoro por Couto (1995, ver anexo 3), preenchida com os fatores de acordo com a situação real exemplificada nas figuras 15 e 16.
Figura 17: Modelo para cálculo do limite de peso recomendado (Couto, 1995)
A análise dos resultados obtidos, apresentados na figura anterior, nos mostra claramente, que o peso movimentado nas características apresentadas (45 Kg), é 10 vezes maior que o peso recomendado através deste cálculo (4,5 Kg).
O índice de levantamento, é obtido através da divisão do peso real levantado (45 kg) e o limite de peso recomendado através do calculo apresentado (4,5 Kg). A interpretação deste índice baseia-se nas seguintes considerações:
a) se o índice de levantamento for menor que 1,0 o trabalhador se encontra numa situação segura, tem uma chance mínima de vir a ter uma lesão;
b) se o índice de levantamento for de 1,0 a 2,0, o risco de vir a ter uma lesão aumenta;
c) se o índice de levantamento for maior que 2,0, o risco de vir a ter alguma lesão na coluna ou no sistema músculo-ligamentar aumenta de forma considerável.
No caso do exemplo apresentado, o índice obtido foi de 10,57. Isto significa que o risco destes trabalhadores virem a ter alguma lesão, está cinco vezes mais alta que o menor índice de risco sério.
Situações onde os índices de levantamento superam o valor mínimo (2,0), são freqüentes nas atividades observadas no estudo de caso (área da construção civil). Além destes foram realizadas no local outras experiências, utilizando este modelo, e os resultados sempre foram acima do valor mínimo. Algumas das atividades observadas foram a movimentação/descarga de sacos de cimento de 50 kg, colocação de suportes de sustentação para as estruturas de madeiras, dentre outras.
Como forma de observar os resultados obtidos da aplicação desta tabela, em outras atividades, foram feitas outras experiências, esta vez de laboratório, nas quais se analisou o índice de levantamento em atividades de movimentação de caixas. Nestes casos, os índices obtidos sempre foram acima de 1,5, e muitos deles acima do valor 2,0.
Pode-se dizer, que este tipo de cálculo é de grande utilidade, pela sua fácil utilização e aplicação, obtendo-se resultados confiáveis e imediatos.